Texto: Ciências Humanas


reflexões sobre as relações humanas

As categorias e a terapia

As categorias não só permeiam a forma de organização cotidiana, como em muitos casos são elas a própria. E, de tão costumeiras constituem um ótimo campo para iniciar um estranhamento sobre as verdades e crenças, mesmo as mais arraigadas. 

A preocupação de como as categorias permeiam o cotidiano aparece em Soar Filho (2005) com uma interessante fala, de uma paciente, quanto a impossibilidade de não pertencer: 

... é terrível, porque quando não se quer pertencer a tribo nenhuma, ainda assim tu acabas sendo enquadrada em algum lugar, nem que seja porque um dia tu apareceste com uma roupa e alguém te chamou de alguma coisa, e assim ficou. Porque é necessário ser qualificado. Ninguém pode não ser simplesmente nada... (p. 141).

Uma outra preocupação com as categorizações aparece no livro As palavras e as coisas de Michel Foucault, que inicia convidando ao estranhamento daquilo que consideramos mais natural

Este livro nasceu de um texto de Borges. Do riso que, com sua leitura, perturba todas as familiaridades do pensamento - do nosso: daquele que tem nossa idade e nossa geografia -, abalando todas as superfícies ordenadas e todos os planos que tornam sensata para nós a profusão dos seres, fazendo vacilar e inquietando, por muito tempo, nossa prática milenar do Mesmo e do Outro. Esse texto cita uma certa enciclopédia chinesa onde está escrito que "os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas." No deslumbramento dessa taxionomia, o que de súbito atingimos, o que, graças ao apólogo, nos é indicado como o encantamento exótico de um outro pensamento, é o limite do nosso: a impossibilidade patente de pensar isso. (FOUCAULT, 1992)

Como propõe Foucault, é desconcertante observamos algo que não condiz com nossa expectativa de tradução da realidade. Mas, as vivências existem para além das palavras e do o aprisionamento da lógica lingüística, elas restringem e conformam o sujeito de forma análoga às possibilidades designativas, que, paradoxalmente, constituem numa possibilidade de libertação e (re)construção. A linguagem ao trazer a possibilidade de inscrição das dissonâncias e dos estados limites, daqueles pontos que não estão nem lá nem cá, denota sua possibilidade criativa e modificadora. E, justamente nestas infinitas possibilidades de se designar algo, mesmo fora do convencionado, que se pode refletir sobre o vivenciado. 

Afinal, o que é esse algo que nos compele a traduzir em palavras aquilo que foi experienciado? Não tenho uma resposta, algumas vezes transito por idéias evolucionistas, como sendo a categorização e a designação compartilhada a própria possibilidade de sobrevivência do homus sapiens. Assim, o exercício humano, de milhões de anos de observação e comunicação, que permitiu o compartilhamento das idéias mais diretamente tangíveis como: folhas, caules, raízes, rizomas, flores, frutos... evoluiu para a capacidade reflexiva de entes abstratos da vivência humana, como: os sentimentos e os cenários futuros. 

Por outro lado e aproximando do que a psicanálise denominou de recalque*, estes infinitos caminhos designativos poderia, também, ser associado à dificuldade de acessar diretamente algumas vivências que remontam a coisas que não foram boas. Lembrando que a impossibilidade designativa é, também, uma forma de comunicação. 

Na terapia há a possibilidade transitar por estes outros inefáveis mundos, onde as idéias nem sempre fazem muito sentido e neste compartilhamento há o exercício de (re)tradução e (re)compreensão dos eventos da vida. E, estranhamente, muitas vezes, parece que ao final desses exercícios denominativos os sujeitos querem chegar a idéias muito simples como "isso é bom ou não é bom"


*Recalque > De forma simplificada, designa o processo de manter inconsciente as idéias que afetam o funcionamento psicológico, mas acaba por se converter em fonte de desprazer. 

Referências bibliográficas

FOUCAULT, M.  As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas.  6 ed., São Paulo: Martins Fontes, 1992.
SOAR FILHO, Ercy.  Para que terapia?: estudo interdisciplinar sobre o self contemporâneo.  Florianópolis, 2005. Tese (Doutorado Interdisciplinar), Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas.

obs: a passagem da enciclopédia chinesa está no livro de Borges "Outras inquisições" no conto "O idioma analítico de John Wilkins" e neste a enciclopédia é denominada de "Empório celestial de conhecimentos benévolos".