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Como saber se aquela dor de cabeça insuportável é mesmo enxaqueca?

O primeiro de uma nova classe de remédios que previnem enxaquecas foi aprovado nos Estados Unidos na semana passada. O remédio, chamado Aimovig, reduz a frequência de enxaquecas entre pacientes crônicos, mas raramente previne completamente os episódios.

Um especialista definiu o medicamento como “progresso, mas não panaceia”. A enxaqueca é a doença neurológica mais debilitante do planeta para as pessoas com mais de 50 anos, superando a epilepsia, derrames e dor crônica nas costas.

Mas muita gente que sofre de enxaqueca não sabe disso, e tampouco menciona os sintomas da doença em consultas médicas.

Amaal Starling, médica especialista em enxaqueca que também sofre com a doença, assim como outras mulheres de sua família- Caitlin O'Hara/The New York Times


Como saber se você tem enxaquecas?

Enxaquecas não são dores de cabeça comuns. A condição é diagnosticada apenas se o paciente sofrer um mínimo de cinco ataques, com duração de entre 4 e 72 horas cada. Cada ataque precisa incluir pelo menos dois dos seguintes sintomas: dor de cabeça lancinante, com nível de dor entre moderado e severo; que se agrava com qualquer atividade; e afeta apenas um lado da cabeça. Além disso a pessoa que sofre de enxaquecas também terá náusea e forte rejeição a sons e barulhos.


E quanto às auras? Elas são parte da enxaqueca?

Às vezes, mas não sempre. Cerca de 20% dos pacientes de enxaquecas registram uma aura antes do ataque. Auras envolvem distorções de visão. As pessoas veem luzes distorcidas ou apresentam pontos cegos em seu campo visual.

Mas as auras também podem tomar outras formas: uma sensação de formigamento em certas partes do corpo, distúrbios de fala, distúrbios sonoros. Algumas pessoas registram auras sem dores de cabeça, ou com dores de cabeça amenas. Auras na verdade envolvem áreas do cérebro diferentes das acionadas nas enxaquecas, e não está claro por que e como estão ligadas à doença.


Enxaquecas são comuns?

Podem começar na infância, ainda que usualmente surjam na adolescência ou começo da idade adulta. Elas afligem uma em cada 5 mulheres, um em cada 16 homens e uma em cada 11 crianças no planeta.

Um quarto dos domicílios tem pelo menos um morador que sofre de enxaquecas. A doença parece surgir por uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Não há o que uma pessoa possa fazer para reduzir a probabilidade de vir a sofrer de enxaquecas.

Por que as enxaquecas atingem mais as mulheres do que os homens? A culpa é dos hormônios?

Possivelmente, mas ninguém sabe ao certo. O estrógeno —hormônio abundante nas mulheres antes da menopausa e presente em quantidade muito menor nos homens— é um dos fatores para a enxaqueca, mas não o único.

Os ataques de enxaqueca parecem ser mais frequentes e severos quando o nível de estrógeno muda, durante a puberdade, menstruação, no primeiro trimestre da gestação, e nos anos que antecedem a menopausa.

Por que pacientes e médicos muitas vezes não percebem que as dores de cabeça de alguém são enxaquecas?

Eles muitas vezes pensam que as dores de cabeça são causadas por tensão, estresse ou desidratação, ou que elas são “dores de cabeça da sinusite” —categoria inexistente.

Stewart Tepper, professor de neurologia no Dartmouth College, diz que “dores de cabeça da sinusite são uma invenção dos publicitários americanos. Se você as menciona na Europa, ninguém sabe do que está falando”.

O corrimento nasal e os olhos lacrimejantes que acompanham uma dor de cabeça podem ser sintomas de enxaqueca, disse ele. Em um estudo, 88% dos pacientes que reportaram dores de cabeça associadas à sinusite ou que tiveram esse problema diagnosticado por um médico na verdade estavam sofrendo de enxaquecas.

Os erros de diagnóstico são muito frequentes. Um estudo constatou que os prestadores de serviços médicos primários que diagnosticaram dores de cabeça como outro problema que não enxaqueca estavam errados na maioria dos casos.

Mesmo pacientes com enxaquecas crônicas, o que é definido como pelo menos 15 dias mensais de enxaquecas, muitas vezes não são diagnosticados corretamente.

Um grande estudo apontou que apenas 4,5% das pessoas que sofriam de enxaquecas crônicas falaram de seus sintomas aos médicos que as atendem, receberam diagnóstico preciso e foram tratadas da maneira correta.

Quais tratamentos realmente funcionam?

Medicamentos analgésicos vendidos sem receita, como aspirina e ibuprofeno, em geral não funcionam. Remédios para a sinusite também tendem a ser inúteis. E não existe um tratamento que previna a enxaqueca em todos os casos.

Os pacientes em geral encontram um remédio, combinação de remédios ou aparelho que ajuda a atenuar a severidade e a duração de um ataque de enxaqueca.

As opções incluem uma categoria de remédios conhecidos como “triptanos”, que funcionam para cerca de 60% dos pacientes. São produtos com opções de genéricos, com preços bastantes variados.

O remédio recentemente aprovado, o erenumabe (Aimovig, da Amgen e Novartis), é o primeiro produto lançado especificamente para prevenir enxaquecas. Ele é injetado uma vez por mês, com um aparelho parecido com o usado em injeções de insulina. O preço de tabela é de US$ 6,9 mil (R$ 26 mil) por ano.

Outros remédios capazes de reduzir a frequência dos ataques são os antidepressivos, remédios para epilepsia, e um tipo de remédio cardíaco —bloqueador beta— que reduz o batimento cardíaco e a pressão arterial. Os efeitos colaterais podem ser intensos.

Com o topiramato, droga para epilepsia, os efeitos colaterais podem incluir distorções cognitivas e variações de humor, perda de peso, glaucoma alérgico, ausência de suor, pedras nos rins e formigamento nas mãos e pés.

O que os pacientes dizem sobre a enxaqueca?

Amaal Starling, médica especialista em enxaquecas na Mayo Clinic de Phoenix, vem de uma família de mulheres que sofrem de enxaquecas —e ela mesma enfrenta esse problema.

No caso de Starling, as enxaquecas começam por uma aura que se manifesta como pontos cegos e dura entre 10 e 15 minutos. Depois vem uma dor de cabeça lancinante.

“As luzes pareciam tão brilhantes que eu não conseguia manter os olhos abertos”, ela disse. “Mesmo que as pessoas falassem baixo, eu ouvia vozes altas que agravavam minha dor de cabeça”.

Um médico lhe disse que a causa de suas dores de cabeça era o estresse, e recomendou que ela fizesse cursos menos difíceis e bebesse mais água.

Por fim, já na escola de medicina, ela fez um curso de farmacologia onde aprendeu sobre os triptanos.
“Fui ao médico, disse que achava que tinha enxaqueca, e que queria tentar os triptanos. Recomendei à minha família que os testasse. Agora, todos nós os usamos”.

Lisa Johnson, 57, administradora de imóveis comerciais em Quincy, Massachusetts, disse que começou a sofrer dores de cabeça lancinantes quando era adolescente. Ouvir qualquer voz, mesmo em volume normal, agravava a dor. Luzes brilhantes tinham o mesmo efeito.

Lisa Johnson, corretora de imóveis em Quincy, Massachusetts que sofria com as dores de cabeça desde a adolescência, até fazer parte dos testes clínicos de uma nova droga- M. Scott Brauer/The New York Times

Cada ataque de enxaqueca durava quatro ou cinco dias. Ela tinha um dia de paz, em seguida, mas o próximo ataque não demorava a chegar.

Johnson tentou analgésicos vendidos sem receita e remédios para sinusite, e também acupuntura, mas sem efeito. Depois dos 30 anos, um especialista em dores de cabeça diagnosticou enxaquecas, mas os tratamentos disponíveis não ajudaram.

Cerca de quatro anos atrás, ela entrou em um teste clínico da Amgen para o remédio que acaba de ser aprovado. Sua reação ao tratamento foi muito incomum: as enxaquecas pararam de todo.
“Nem lembro mais da dor que sentia”, ela disse. “Sem a dor, você pode viver sua vida”.

The New York Times Tradução de Paulo Migliacci