Terapia Familiar


psicologia

Resposta ao questionário, de uma jornalista, sobre os impactos do nascimento primeiro filho na vida do casal.

Depressão pós-parto: o que é, os sintomas, o que causa, estatísticas, a procura de ajuda, o tratamento.
O momento do parto do primeiro filho é mais que uma datação, é a materialização de vários meses ou até de anos de sonhos e preparativos. No parto do primeiro filho há uma profunda mudança, no qual as mulheres se efetivam como mães e os homens como pais. Um evento que mescla felicidade e medo e tal ambigüidade torna o parto, também, um evento de elevada probabilidade de adoecimento.
A depressão pós-parto é um quadro clínico grave e deve ser tratado. Da literatura, a depressão pós-parto se inicia até 4 semanas após o parto, é caracterizada pela instabilidade de humor e pode ocorrer outros transtornos associados, como ideações suicidas ou pensamentos obsessivos. Na depressão há a sensação corporal de peso, muito sono ou insônia, falta de perspectivas, falta de cuidado de si e sentimentos de profunda rejeição. Estes sintomas não devem ser confundidos com a tristeza pós-parto, no qual a mãe pode ficar um pouco desatenta, triste, preocupada e com sentimentos de culpa, por se sentir triste e não feliz como ela imaginou que ficaria com o nascimento.
Dentre os sintomas depressivos alguns autores enumeram uma gradação, que varia da mãe estar pouco atenta às demandas do bebê (higiene e alimentação); passando para a indiferença (bebê chora e a mãe não vai vê-lo, ou a mãe não brinca com o bebê) e nos casos mais graves pode chegar ao total abandono (como se vê nos noticiários policiais). Para que tais eventos ocorram a mãe deve estar sozinha ou convivendo com pessoas que não tenham sensibilidade para perceber o que está ocorrendo. Portanto, um aspecto importante é quanto à condição psico-emocional tanto do casal quanto da família em lidar com os sintomas do quadro depressivo e de não confundi-los com a tristeza pós-parto.
No tratamento as melhores condições de sucesso ocorrem com a combinação dos tratamentos medicamentosos com os psicoterápicos. Na terapia familiar, por exemplo, pode-se auxiliar a família a (re)conhecer os recursos positivos existentes que se contrapõe às condutas mantenedoras dos sintomas. Enfim, a visibilidade dos sintomas, a sensibilidade dos familiares e a qualidade do atendimento à mãe e à família, é que denotarão a evolução do caso. Um outro aspecto é que a depressão pós-parto é uma doença que afeta mãe e filho, pois a criança, sobretudo no pós-parto, demanda de cuidados e interações de ótima qualidade.

De mulher e marido à pai e mãe: as mudanças na vida do casal; menos tempo, menos sexo, menos atenção para eles, mais cansaço e irritação para elas; como se sentem, como superar o conflito.
A condição do casal em manter a cumplicidade mesmo diante dos novos papéis, normalmente imputados pela vida, está ligada à qualidade da relação "cultivada". Nada precisa ser menos ou mais, a nova situação pode ser ganho ou perda, vitória ou derrota, conforme os recursos e possibilidades do casal. No caso dos filhos há toda a gravidez para se prepararem e no início os bebês dormem muito, o que também auxilia o casal a se preparar, isto é caso se disponham às mudanças necessárias.
Alguns estudos indicam o caráter volátil das sociedades pós-modernas, que resulta numa menor "disponibilidade", "vontade" e "obrigação" de conviver com as condições insatisfatórias. No qual os relacionamentos seriam como a tendência "one-way" dos anos 70: "ficou velho ou não funciona, joga fora e pega outro". Em oposição a tal tendência a pós-modernidade demanda da junção de esforços (sinergia) para a realização dos projetos maiores, pois as necessidades profissionais, pessoais e familiares se sobrepõem. Já se foi o tempo em que a mulher não tinha carreira e ambição profissional e sua identidade estava vinculada aos afazeres domésticos, que não eram compartilhados com o companheiro. Certamente que tais aspectos relacionais dos casais pós-modernos, só têm sentido com boas doses dos "ingredientes básicos" de qualquer casal, como: afinidade, companheirismo, cumplicidade, capacidade de escuta, sexo, amor...
Então, voltando a questão de como superar o conflito? No provérbio popular "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come" há uma saída: "se falar o bicho some". Tal opção nem sempre é fácil, pois se o casal tem problemas relacionais não serão os filhos que irão resolver e às vezes muito pelo contrário. Quando o casal fica ciente que não há substitutos para os acertos de uma relação, nem filhos, nem carro novo, nem viagem... e que há suficientes "ingredientes básicos" que possam se contrapor às tendências pós-modernas de volatilidade, a superação do conflito recai na melhora do diálogo e da cumplicidade.

Irmão ciumento: o problema dos mais velhos abandonados, que podem se tornar agressivos, deprimidos ou distantes com a chegada de um irmão para dividir as atenções. Como prevenir, como reconhecer que o filho não está bem e como ajudar a integrar os irmãos?
Uma questão interessante, novamente a qualidade do relacionamento ecoando nos problemas. O quanto de expectativas e idealizações havia no primeiro filho e quantas têm no segundo? Alguns dizem que o primeiro é o depositário de uma boa dose do imaginário do casal e o segundo das condições reais de se cuidar de uma criança. E, as famílias reduzidas têm colaborado para o acirramento de tais projeções e condições reais de existência. Mas, será que é só o irmão que disputa o espaço com o primeiro filho? Um novo trabalho, um parente doente, mudança de casa... quantas novas situações podem acontecer? Quais as condições do casal para não aumentar um dado problema? Como a família negocia as soluções e como é a participação efetiva de cada membro na amplificação ou redução dos problemas?
Como reconhecer que o filho não está bem é, de certa forma, mais fácil e depende da sensibilidade dos pais, pois a criança é muito clara na expressão de seus sentimentos: os brinquedos quebram, a porta bate, o apetite some, os machucados se multiplicam, etc.
Como prevenir é uma condição mais difícil, pois depende da atenção e capacidade de comunicação. Imaginando que este novo ente é desejado pelo casal e que não haja outros problemas, a participação dos filhos é fundamental. Em linhas gerais, os eventos e as situações devem ser transformados em ganho e não em perda e a disponibilidade dos pais em permitir aos filhos serem participantes é, também, uma condição fundamental. Desta forma cabe aos pais incentivar a participação, como: passar óleo na barriga da mamãe; sentir o irmãozinho chutar; arrumar o novo quarto... Enfim, os filhos devem ser comunicados claramente do que podem fazer para ajudar e não só ficar levando broncas por suas tentativas de se fazerem presentes.

Avós intrometidas: o caso clássico da mãe/sogra que "sabe" o que precisa ser feito, às vezes se muda pra casa do casal pra ajudar, e cria problemas por não respeitar o que os pais querem ou precisam descobrir e se mete além da conta. Como lidar com o tipo sem ser ingrata nem perder o apoio.

Limites > "não podemos dar o que não temos!" Por outro lado, só se avança quando há espaço, portanto, quem avança está suprindo uma lacuna e realmente se sentindo útil ao constatar que os demais não estão dando.
Qual caso? Nós que não sabemos dizer "não" ou é o outro que não se toca? Que tal um pouquinho de cada? Como lidar pode variar muito, já que as histórias familiares são muito longas e permeadas por pequenos detalhes e mágoas. Certamente o melhor é falar, num momento calmo, claramente em primeira pessoa do singular: "como eu me sinto e o que eu quero". Para que não cheguem a vociferarem as três da manhã com o bebê chorando: "que é uma intrometida, que não para de encher o xxxx, que sempre foi assim, que não mudou nada...".
Certamente os mais velhos têm muita experiência e na maioria das vezes tem a calma necessária para lidar com a criança recém-nascida. O problema é como serão as combinações dos limites de atuação para que não se sufoquem já que o primeiro filho introduz, ou deveria introduzir, uma troca coletiva de títulos e papéis. Então, as conversas mais calmas com base em "eu me sinto" geralmente auxiliam a clarificar os novos limites e a troca de papéis: neto, filho, mãe, pai, avó, avô, bisavó, bisavô, irmão, irmã, tio, tia...

Supermulher: ser mãe, esposa, trabalhar, dar conta da casa, ainda ser bonita, ter amigos, fazer sucesso, etc. A exaustão de tentar dar certo em tantos papéis. Como lidar com a pressão, a necessidade de definir prioridades, delegar tarefas, dizer não e tirar um tempinho só para ela. - Quem é essa? As inevitáveis mudanças no corpo no pós-parto e como lidar com a nova imagem no espelho, aceitando as marcas que surgiram (como estrias), o tempo para o organismo se readaptar (a barriga que fica, os absorventes gigantes que tem que usar no começo, os seios enormes, a lentidão para voltar à antiga forma) e a falta de tempo para se produzir como antes. Vamos aconselhar como conviver com isso numa boa, tentando não mencionar tratamentos estéticos.

Que super questão! Acho que a resposta vai ser menor que o enunciado! O início da questão já fornece alguns indícios para o esboço de uma resposta. Afinal somos para os outros e não para nós? Quanta de energia é gasta para contentar os outros? Será que não há outros modos menos dispendiosos de se viver?
Há, portanto, na demanda de ser falso consigo mesmo, de fazer para os demais e não para si e na adoção irrefletida dos modelos sociais pós-modernos uma parte da resposta. Quem é este ser que só se vê quando olha para fora? E, que só se reconhece pelo olhar dos outros? Que vazio é este que só pode ser preenchido por atributos externos: espelho, seios implantados, amigos, carrão, móveis novos, roupas da moda, ...?
Por outro lado, vamos mais adiante com esta idéia de supermulher, mas retiremos a mulher e fiquemos com o super. Será que é necessário vestir a roupa de super e ficar impossibilitado de pedir de ajuda? Uma parte da resposta vem de um interessante estudo de gênero do cotidiano dos homens e mulheres, que relaciona a melhoria na qualidade da vida sexual do casal com o compartilhamento das atividades domésticas. Em sua simplicidade, este estudo é muito interessante ao introduzir a idéia que as possibilidades de cooperação do casal alavanca mais recursos do que cada qual individualmente: um supercasal.