Terapia Familiar


psicologia

Entrevista sobre paternidade

Qual é o papel do pai de primeira viagem durante a gestação?

O papel é o mesmo de qualquer pai: amor, carinho, apoio e segurança. Existem muitos cursos preparatórios para os pais que não se sentem confiantes e nestes as informações técnicas auxiliam a desenvolver confiança e tranquilidade para os momentos iniciais.
Com o primeiro filho os novos "papéis" pai/mãe demandam um tempo de acomodação e alguns cuidados para não se esquecerem dos "papéis" anteriores marido/mulher. Um dos desafios aos pais iniciantes é de se manterem presentes frente ao "turbilhão de ajudas e inseguranças", em muitas famílias os jovens pais não se sentem "prontos" para o novo "status" e tendem a se afastarem da situação que não conseguem compreender e/ou lidar. E, justamente nessa transição que o apoio das famílias e amigos se mostra fundamental: ajudar a fazer, difere de fazer por ele.
Após o parto a tendência é das mulheres tomarem conta de todas as atividades e, consequentemente, os homens ocuparem posições periféricas. A mudança desses papéis, culturalmente aceitos, demanda de muita perseverança e segurança por parte dos homens.

Como o pai pode iniciar um vínculo maior no momento do nascimento e nos primeiros meses de vida do filho?

Quando o pai está devidamente preparado ele se torna uma figura importante durante o parto, pois transmite segurança à sua companheira. E, durante o período de recuperação do parto ele pode desempenhar todos os cuidados com o bebê, bem como, amparar e auxiliar sua companheira.
O vínculo se inicia com a segurança/tranquilidade no desempenho das tarefas cotidianas do bebê e continua durante toda a vida. Recordo-me uma terapia de casal; o orgulho do pai ao descrever que trocou a primeira fralda de seu filho enquanto a mãe estava sedada, na recuperação do parto. Eles poderiam ter algumas divergências, mas o cuidado com os filhos não era ponto de conflito e sim de confiança. Portanto, o vínculo não se constrói no vazio, ele se consolida nas atividades cotidianas.
Certamente que, para os homens, adentrarem nesse reduto tipicamente feminino não é fácil, pois há uma "automática" exclusão deles nos cuidados com os bebês recém-nascidos. A tendência "natural" é dos envolvidos repetirem antigos e arraigados papéis, portanto a mudança demanda muito empenho por parte dos homens/pais. O caminho desta transição lembra ao trilhado pelas mulheres algumas décadas atrás, ao ensejarem ingressar no mercado de trabalho em profissões tipicamente masculinas: elas tinham de estar mais preparadas e confiantes, que os homens em tarefas similares.

E quando os pais não são casados. Qual é a melhor forma para o pai participar ativamente na vida do filho desde seu nascimento?

Casados são aqueles que possuem amor, cumplicidade e compartilham a vida.
A tua questão pode ser abordada por diversos âmbitos, ficarei com dois:
a) "não casados" se refere a ausência de uma formalidade cartorial e b) "não casados" a não convivência do pai e mãe sob o mesmo teto.
Destas duas situações se depreende que:
a) a falta de um documento ou de um registro não interfere quando há amor e cumplicidade.
b) a não convivência sob mesmo teto pode ser harmônica ou litigiosa?
Quando há litígio a lógica jurídica apregoa que a separação não deve destituir o poder familiar, na prática somente com bons advogados, assistentes sociais e magistrados que se pode evitar a segregação de um dos cuidadores, geralmente o pai. Me recordo que logo que saiu a Lei Maria da Penha um caso me chamou a atenção: a genitora, detentora da guarda provisória, se aproveitava enquanto o pai afivelava o cinto de segurança dos filhos, ela o beliscava dizia baixinho: "revida que estou 'loca' por um BO (boletim de ocorrência)!" O pai gravou as situações e peticionou que as retiradas e entregas dos filhos fossem com parentes genitora. Pior que indeferida, a petição foi negligenciada e o judiciário não adotou nenhuma medida de proteção. Desamparado, com uma péssima assistência jurídica e sem saber como conter as manipulações da genitora, o pai se afastou. Hoje, passados alguns anos, a situação deste caso agravou e os filhos dizem: "papai foi embora, ele não nos ama!"

Quando há uma convivência harmônica, mesmo se separados, pai e mãe podem combinar os cuidados, a criança ganha duas casas para morar e sabe que pode contar com os dois. Um dos problemas que aparece com frequência é que frente a pequenos problemas alguns parentes acabam por potencializar o conflito/situação ao invés de auxiliar a dirimi-los. Portanto, a participação é possível quando há um "clima" de respeito.

Com as mudanças da sociedade, você acredita que os homens se libertaram da imagem de macho alfa, com isso assumindo mais responsabilidades como pai?

Há muitos anos que eu não escuto essa designação zoológica "macho alfa" até me faz lembrar do livro "Admirável Mundo Novo"!
Os antigos e arraigados papéis só podem ser modificados num movimento conjunto sujeito-sociedade. Só existe um "macho-alfa" se sujeito e sociedade considerarem a existência de tal "papel/lógica". Portanto, o sujeito só pode realizar um determinado conjunto de ações se a sociedade referendar, explicita ou implicitamente, tais "ações/lógicas".
A idéia básica para superação de um dado sistema valores num meio social humano deve incluir alguns elementos:
a) a supressão do imediatismo, ou seja, sair dos problemas emergenciais e tecerem, em conjunto, projetos futuros, nesse nosso tema seria: pai e mãe combinarem o futuro para os filhos;
b) manter a memória do passado, sejam bons ou maus momentos, com fotos, videos, artefatos etc, pois a supressão da memória tende a naturalizar os padrões que, justamente, devem ser modificados e
c) ter amigos e parentes que apóiem o novo papel/valor e nesse sentido que não estimulem qualquer lógica e/ou designações sectárias como "macho alfa beta epsilon ou zeta".

Como você analisa as diferenças de ser pai há 3 gerações atrás e ser pai nos dias atuais?

O problema da lembrança é que ela geralmente romanceia e enaltece determinados aspectos. Esta tua questão seria um belo trabalho de resgate histórico. Mesmo os avôs que vem para o consultório não constituem um bom parâmetro para elaborar a resposta, por dois motivos:
a) quem faz terapia deseja rever suas verdades e constituem uma pequena parcela da população e
b) trazem toda uma bagagem de conhecimentos destas últimas décadas que acumularam pequenas mudanças e, portanto, o pensamento original já está deturpado.
Eu poderia até divagar sobre a rigidez nos papéis, mas mesmo isso deveria ser lido com cuidado, pois seria "simplificar" a vida de nossos pais e avós e, de quebra, estaríamos inferindo a vida atual é mais "complexa".
Recordo-me de um texto de Foucault em que descreve inúmeras situações, de dois mil anos atrás, da vida familiar comparando esposas, filhos, escravos aos utensílios domésticos... e lá no meio ele colocou, propositalmente, uma carta de amor de um general romano à sua esposa. Um pequeno elemento que quebra a linearidade do que seria o nosso primeiro pensamento sobre a vida e nos mostra o quão difícil é um honesto resgate da paternidade de algumas décadas atrás.

Com a autonomia da mulher na sociedade, você acredita que o papel de pai acabou perdendo espaço dentro da estrutura familiar? Se sim, o que isso acarreta na sociedade?

Elementos desta última questão estão contidos nas respostas anteriores. Podemos pensar que mudou, mas para provocar a reflexão podemos dizer que o papel de pai foi ampliado. Quanto ao o que acarreta na sociedade, mesmo "se sim" ou "se não", penso que a sociedade humana, que tem na velocidade de transporte da informação uma de suas marcas atuais, está permitindo como sempre permitiu: "mudanças".
O teu termo zoológico me auxilia num devaneio pelas mudanças: ora mais lentas, ora mais rápidas. Se hoje temos características distintivas das demais sociedades com as quais compartilhamos este planeta, então podemos pensar que mudamos/adaptamos, quiçá mais rápidos, mas isso não implica dizer "melhor" ou "pior".
Quando comparamos os dados estatísticos de saúde, notamos que as mulheres estão fumando mais, bebendo mais e enfartando mais que algumas décadas atrás. Isso quer dizer o quê? A resposta fica difícil. No que você denomina "autonomia" pode estar contido um decalque de ganhos e perdas. No momento em que as mulheres assumem outros papéis, implica autorizar os homens experimentarem e modificarem. Só espero possam refletir e realçar hábitos mais saudáveis sejam eles dos mundos outrora tidos como masculino quanto feminino.