A confiança como ativo estratégico

por
Arthur Müller
em 2026 ― atual. jul.2026

A confiança é um tema transversal, seja nos diálogos com nossos pares ou com as instituições. Por vezes, aparece travestida de metáforas e, por vezes, manifesta-se como um profundo corte, que impede qualquer outro movimento. Geralmente quando perdemos a confiança em nós mesmos!
Penso nos significados de certeza e confiança, como uma evolução duma época dominada pelos monarcas e dogmas para a era da comunicação e conhecimento compartilhado. No passado "a certeza" era ligada ao sujeito e ao objeto puro, inquestionável ante poderosas leis universais. E, recentemente, a confiança como um acordo intersubjetivo, uma tentativa de compreensão das possibilidades que emergem das inúmeras informações.
Neste texto apenas algumas rápidas anotações sobre a confiança nas instituições, tratadas pelo econômico e o social.


Todas as instituições se sustentam sobre um alicerce invisível: a confiança. Covey a trata como ativo mensurável, enquanto Bauman e Han descrevem sua erosão como marca de nosso tempo. Estamos entre esses polos, com nossas decisões cotidianas: em quem confiaremos, o que verificaremos e o que deixaremos de verificar. Podemos sair do automático e exercitar um repensar de nossas escolhas, no qual: cada gesto de confiança reduz atrito e abre espaço para cooperação, e cada gesto de desconfiança protege, mas também isola e onera. Neste sentido ficam as questões:
Qual é o custo real da vigilância mútua que praticamos sem perceber?

O que perdemos e o que ganhamos, quando deixamos de confiar?


Confiança

A confiança ocupa na literatura um lugar ambíguo. De um lado, é tratada como pré-condição para a cooperação econômica e política [1, 9]. De outro, autores a descrevem justamente a erosão dessa condição como traço estrutural do presente [2, 4, 5]. Esse texto não busca resolver essa tensão, apenas expor os elementos para que você, leitor, construa seu próprio julgamento.

O ponto de partida é simples: a percepção cotidiana de desconfiança nas instituições ( bancos, governos, empregadores, plataformas digitais ) não invalida as teorias que colocam a confiança no centro da vida organizacional. Ao contrário, ela é o fenômeno que essas teorias tentam explicar [2, 4, 5]. O problema não está na tese de que a confiança importa, está em saber se ela pode ser reconstruída deliberadamente, como sugere a literatura de gestão [1, 7], ou se as condições estruturais da modernidade tardia tornam essa reconstrução cada vez mais custosa [2, 4, 5, 10].

A gestão e a economia institucional

Covey argumenta que a confiança funciona como redutor de custo de transação: sua ausência gera burocracia, auditoria e contratos defensivos, o que retarda processos e eleva despesas [1]. Essa leitura tem respaldo direto na nova economia institucional. North demonstra que instituições previsíveis reduzem custos de transação e favorecem o desempenho econômico de longo prazo [6]. Mayer oferece um modelo integrativo no qual a confiança organizacional resulta da percepção de três atributos do outro: competência, benevolência e integridade[7].

Em sua análise comparada de sociedades de alta e baixa confiança, Fukuyama trata da escala macroeconômica. Para o autor a capacidade de cooperação espontânea entre estranhos, torna-se fator para a prosperidade de longo prazo de nações inteiras. Embora tal idéia tenha críticas quanto as condições que atuam na confiança, sua conclusão é pertinente: confiança e outras virtudes cívicas são mais fáceis de destruir do que de reconstruir, e instituições centralizadoras tendem a corroer os vínculos intermediários que a sustentam.[8]

Em conjunto, esses quatro autores constroem um argumento coerente: a confiança não é apenas virtude moral, é mecanismo de coordenação econômica mensurável. [1, 6, 7, 8]

A visão sociológica

Bauman descreve a modernidade como um estado em que instituições perdem solidez, permanência e capacidade de orientar a ação de longo prazo [2]. E aprofunda essa tese ao discutir a incerteza como condição permanente da vida contemporânea, e não como exceção a ser superada [3]. Portanto, a confiança organizacional enfrenta um ambiente estrutural que dificulta a formação de vínculos duradouros, independentemente da boa vontade dos atores envolvidos [2].

Han oferece um argumento complementar, no qual a sociedade contemporânea substitui a confiança pela exigência de transparência total: quando tudo deve ser visível, mensurável e auditável, a confiança se torna supérflua e é substituída pelo controle[5]. Han também descreve a "sociedade do cansaço", na qual o sujeito é ao mesmo tempo explorador e explorado de si mesmo, numa autocobrança de desempenho e produtividade. Fato metamorfoseado, e por vezes escamoteado, no ambiente corporativo, pois tende a converter relações de cooperação em relações de performance individual [4]. A hiperconectividade digital é descrita por Han como substituta dos vínculos duradouros. Coisas e pessoas são substituidas por fluxos de informação (descartáveis), o que deteriora as relações de longo prazo dentro e fora das organizações [5].

Giddens acrescenta que a confiança, dos indivíduos nas sociedades modernas, não é mais depositada nas pessoas, mas naquilo que ele denomina de mecanismos de desencaixe, como: dinheiro, sistemas técnicos, corpos de especialistas [10]. Esse deslocamento pessoas-mecanismos explica, em parte, por que a confiança interpessoal tradicional (a que Covey descreve como restaurável por comportamento individual) convive com uma desconfiança sistêmica de outra natureza, dirigida a instituições abstratas e não a pessoas específicas [10].

Pontos de convergência e de tensão

A dinâmica da confiança, nesta nossa modernidade, transita entre a sua funcionalidade econômica e a sua erosão estrutural.

Por um lado, a confiança é um ativo mensurável e deliberadamente construído que reduz custos de transação [1, 7], operando como engrenagem essencial para a cooperação e prosperidade das nações [6, 8]. Por outro lado, diagnósticos de volatilidade institucional apontam para uma erosão estrutural que torna a confiança instável ou aparentemente obsoleta [2, 3, 4, 5].

Contudo, essas ideias demandam uma estabilidade institucional mínima [1, 7] e é vulnerável a corrosão que as grandes centralizações proporcionam. No olhar de Fukuyama: sempre foi mais fácil destruir do que de criar[8]. Atualmente a vulnerabilidade da confiança se manifesta via crises de legitimidade institucionais (como escândalos e quebras de contratos sociais), na qual a desconfiança emerge como uma resposta racional da estrutura social, e não como uma patologia individual [2, 8].

Esses aspectos da confiança, ou falta dela, se refletem no imediatismo do mercado e na precarização do trabalho, dinâmicas que alimentam mutuamente a "sociedade do cansaço" e o enfraquecimento das redes de segurança institucional [2, 4]. Em paralelo, a modernidade deslocou a confiança das relações interpessoais para sistemas abstratos e especialistas [10]. Esse deslocamento explica a coexistência entre uma confiança funcional (como o uso cotidiano de tecnologias e bancos) e uma desconfiança institucionalizada (direcionada a governos e mídias) [10]. Para Han, as plataformas digitais intensificam esse cenário de desconfiança sistêmica ao mobilizar afetos como raiva, medo e indignação. Esses afetos alimentam processos de polarização e são convertidos em mecanismos de engajamento e geração de valor econômico. Tal fenômeno tanto valida a tese de substituição da confiança por vigilância mútua [5], quanto expõe uma falha de modelos robustos de governança corporativa e sua gestão [6].

Comentários

Diante dessa dualidade, fica um convite a você, leitor: em que medida a sua organização opera em um contexto no qual a confiança pode ser reconstruída por meio de comportamentos e políticas internas, e até que ponto ela esbarra em constrangimentos macroestruturais que demandam respostas de natureza sistêmica, sejam elas setoriais ou regulatórias?

Referências

[1] Covey, S. M. R., & Merrill, R. R. (2006). The speed of trust: The one thing that changes everything. New York: Free Press.

[2] Bauman, Z. (2000). Liquid modernity. Cambridge: Polity Press.

[3] Bauman, Z. (2007). Liquid times: Living in an age of uncertainty. Cambridge: Polity Press.

[4] Han, B.-C. (2015). Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes.

[5] Han, B.-C. (2017). Sociedade da transparência. Petrópolis: Vozes.

[6] North, D. C. (1990). Institutions, institutional change and economic performance. Cambridge: Cambridge University Press.

[7] Mayer, R. C., Davis, J. H., & Schoorman, F. D. (1995). An integrative model of organizational trust. Academy of Management Review, 20(3), 709–734.

[8] Fukuyama, F. (1995). Trust: The social virtues and the creation of prosperity. New York: Free Press.

[9] Han, B.-C. (2022). Não-coisas: Reviravoltas do mundo da vida (L. Machado, Trad.). Petrópolis: Vozes.

[10] Giddens, A. (1990). The consequences of modernity. Cambridge: Polity Press.