Medos Infundados

Escrito por: Sêneca
Cartas a Lucílio XIII - 65 d.C.


Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Eu sei que você tem muita garra. Pois mesmo antes de você começar a equipar-se com máximas que eram saudáveis e poderosas para superar obstáculos, você estava se orgulhando de sua disputa com a Fortuna; e isso é ainda mais verdadeiro agora que você se atracou com a Fortuna e testou seus poderes. Pois nossos poderes nunca podem inspirar uma fé implícita em nós mesmos, a não ser quando muitas dificuldades tenham nos cortejado por inúmeros lados e ocasionalmente tenham se atracado conosco. Somente dessa maneira o verdadeiro espírito pode ser testado, o espírito que nunca consentirá em submeter-se à jurisdição de coisas externas a nós, aquele que nunca abdicará do seu livre arbítrio.

2. Esta é a marca de tal espírito. Nenhum lutador pode ir com alta expectativa para a luta se ele nunca foi espancado, o único concorrente que pode entrar com confiança na luta é o homem que viu seu próprio sangue, que sentiu seus dentes chacoalharem sob o punho do seu adversário, que foi derrubado e sentiu toda a força da carga do seu adversário, que foi abatido não só no corpo, mas também em espírito, aquele que, quantas vezes cai, levanta-se novamente com maior teimosia do que nunca.

3. Então, para manter a minha analogia, a Fortuna foi muitas vezes no passado preponderante sobre você e mesmo assim você não se rendeu, mas saltou ereto e manteve a sua posição ainda mais determinadamente. Pois a virilidade ganha muita força ao ser desafiada. No entanto, se você aprovar, permita-me oferecer algumas salvaguardas adicionais pelas quais você pode se fortalecer.

4. Existem mais coisas, Lucílio, suscetíveis de nos assustar do que de nos derrotar; sofremos mais na imaginação do que na realidade. Eu não estou falando com você na linha estoica, mas em meu estilo mais suave. Pois é a nossa maneira estoica, falar de todas essas coisas que provocam gritos e gemidos, tanto sem importância quanto irrelevantes. Mas você e eu devemos proferir palavras grandiosas, embora, os deuses sabem, verdadeiras. O que eu aconselho você a fazer é, não ser infeliz antes que a crise chegue, já que pode ser que os perigos que o empalidecem como se estivessem o ameaçando agora, nunca cheguem sobre você; eles certamente ainda não chegaram.

5. Assim, algumas coisas nos atormentam mais do que deveriam; algumas nos atormentam antes do que deveriam e algumas nos atormentam quando não deveriam nos atormentar. Temos o hábito de exagerar, imaginar e antecipar a tristeza. A primeira dessas três faltas pode ser adiada no momento, porque o assunto está em discussão e o caso ainda está no tribunal, por assim dizer. O que eu chamo de insignificante, você considerará ser mais grave pois é claro que eu sei que alguns homens riem enquanto são açoitados e que outros estremecem com um tapa na orelha. Consideraremos mais tarde se esses males derivam seu poder, de sua própria força ou de nossa própria fraqueza.

6. Faça-me um favor; quando os homens o rodeiam e tentam convencê-lo a acreditar que você é infeliz, considere não o que você ouve, mas o que você sente e tome conselho com seus sentimentos e se questione de forma independentemente, porque você sabe seus próprios assuntos melhor do que qualquer um. Pergunte: “Há alguma razão por que essas pessoas devam compadecer-se de mim, por que elas deveriam estar preocupadas ou até mesmo temer alguma contaminação de mim, como se problemas pudessem ser transmitidos? Existe algum mal envolvido ou é apenas uma questão de mau relato, em vez de um mal?” Coloque a pergunta voluntariamente a si mesmo: “Estou atormentado sem razão suficiente, estou melancólico e estou a converter o que não é mal no que é mal?”

7. Você pode retorquir com a pergunta: “Como vou saber se meus sofrimentos são reais ou imaginários?” Aqui está a regra para tais assuntos: somos atormentados por coisas presentes ou por coisas vindouras ou por ambas. Quanto às coisas presentes, a decisão é fácil. Avalie se sua pessoa goza de liberdade e saúde e que você não sofra de nenhuma violência física. Quanto ao que lhe acontecerá no futuro, veremos mais adiante. Hoje não há nada de errado.

8. “Mas,” você diz, “algo vai acontecer.” Em primeiro lugar, considere se suas provas dos problemas futuros são certas. Pois é mais comum que nos incomodemos com as nossas apreensões e que sejamos zombados por aquele zombador, o boato, que costuma instalar guerras, mas muito mais frequentemente liquide indivíduos. Sim, meu caro Lucílio, concordamos muito rapidamente com o que as pessoas dizem. Não colocamos à prova as coisas que causam o nosso medo, não as examinamos a fundo, titubeamos e nos retiramos. Exatamente como soldados que são forçados a abandonarem seus acampamentos por causa de uma nuvem de poeira levantada pelo estampido do gado ou são lançados em pânico pela divulgação de algum rumor não autenticado.

9. E, de alguma forma, é o relatório negligente que nos perturba mais. Pois a verdade tem seus próprios limites definidos, mas o que surge da incerteza é entregue à adivinhação e à licença irresponsável de uma mente assustada. É por isso que nenhum medo é tão ruinoso e tão incontrolável como o medo causado pelo pânico. Pois alguns medos são infundados, mas este medo é imbecil.

10. Vejamos, pois, atentamente o assunto. É provável que alguns problemas nos acontecerão, mas não é um fato presente. Quantas vezes o inesperado aconteceu! Quantas vezes o esperado nunca chegou a acontecer! E mesmo que seja destinado a ser, o que é que vale correr para encontrar seu sofrimento? Você sofrerá em breve, quando chegar a hora, então, enquanto isso, olhe para a frente, para coisas melhores.

11. O que você ganhará fazendo isso? Tempo. Haverá muitos acontecimentos, entretanto, que servirão para adiar ou para terminar, ou para transmitir a uma outra pessoa as provações que estão próximas ou mesmo em sua própria presença. Um incêndio abriu o caminho para a fuga. Os homens foram derrotados por uma catástrofe. Às vezes o movimento da espada é parado na garganta da vítima. Alguns homens sobreviveram a seus próprios carrascos. Mesmo a má Fortuna é inconstante. Talvez venha, talvez não, entrementes, agora, não está aqui. Então, esperemos coisas melhores.

12. A mente às vezes modela para si as formas falsas do mal quando não há sinais que apontem para algum mal, interpreta da pior forma alguma palavra de significado duvidoso ou imagina algum rancor pessoal ser mais sério do que realmente é, considerando não quão irritado o inimigo está, mas a que extensão poderá chegar sua ira. Mas a vida não vale a pena ser vivida, e não há limites para nossas dores, se entregarmos nossos medos ao máximo possível. Neste assunto, deixe a prudência ajudá-lo e despreze o medo com um espírito resoluto mesmo quando ele está à vista. Se você não pode fazer isso, combata uma fraqueza com outra e tempere o seu medo com esperança. Não há nada tão certo nesse assunto de medo como as coisas que tememos darem em nada e as coisas que esperamos nos decepcionarem, zombando de nós.

13. Consequentemente, pese cuidadosamente as suas esperanças assim como os seus temores, e sempre que todos os elementos estiverem em dúvida, decida em seu favor. Acredite no que você preferir. E se o medo ganha a maioria dos votos, incline-se na outra direção de qualquer maneira e deixe de incomodar sua alma, refletindo continuamente que a maioria dos mortais, mesmo quando não têm problemas realmente à mão, certamente os têm esperado no futuro, e tornam-se excitados e inquietos. Ninguém resiste ao próprio impulso que tomou, quando começa a ser incitado à frente; nem regula o seu medo de acordo com a realidade. Ninguém diz: “o autor da história é um tolo e quem crê nela é um tolo, assim como aquele que a fabricou.” Nós nos deixamos levar com cada brisa, estamos assustados com as incertezas, como se estivessem certas. Não observamos com moderação. A menor coisa vira o jogo e nos coloca imediatamente em pânico.

14. Mas eu tenho vergonha tanto de admoestá-lo severamente ou tentar iludi-lo com remédios tão suaves. Deixe outro dizer. “Talvez o pior não aconteça”. Você mesmo deve dizer. “Bem, e se isso acontecer, vamos ver quem ganha, talvez isso aconteça para o meu melhor interesse, pode ser que tal morte derrame crédito sobre a minha vida”. Sócrates foi enobrecido pelo chá de cicuta. Retire da mão de Catão sua espada, que lhe assegurou liberdade, e você o privará da maior parte de sua glória.

15. Estou lhe exortando por demasiado tempo, já que você precisa de recordação e não de exortação. O caminho para o qual o guiarei não é diferente daquele em que a sua natureza o guia, você nasceu para a conduta que eu descrevo. Portanto, há mais razão para reforçar e alegrar as boas qualidades que já existem em você.

16. Mas agora, para fechar a minha carta, tenho apenas de estampar o selo habitual, ou seja, consignar uma mensagem nobre a ser entregue a você: “O tolo, com todos os seus outros defeitos, tem este também: ele está sempre se preparando para viver.” Reflita, meu estimado Lucílio, o que significa essa palavra, e você verá quão revoltante é a inconstância dos homens que estabelecem cada dia novos fundamentos de vida e começam a construir novas esperanças mesmo à beira da sepultura.

17. Olhe dentro de sua própria mente para instâncias individuais, você pensará em homens velhos que estão se preparando naquela mesmo momento para uma carreira política ou para viajar ou para negócios. E o que é mais mesquinho do que se preparar para viver quando você já é velho? Eu não devo dar o nome do autor deste lema, exceto que é pouco conhecido e não é um daqueles ditos populares de Epicuro que eu me permiti elogiar e apropriar.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.