Visão de mundo

por
Arthur Müller
em 2022 ― atual. mai.2026


É numa imagem como essa que eu me flagro quão congelada está a minha visão de mundo...

Valéry escreveu em 1928 que as obras de arte adquiririam uma espécie de ubiquidade (capacidade de estar presente em todos os lugares ao mesmo tempo ) — bastaria invocá-las e lá estariam, como água ou eletricidade entregues em casa por simples movimento da mão. Benjamin retomou essa idéia em 1936, pensando o que se perde quando a obra se multiplica: a aura e o irrepetível "aqui e agora".

Em maio de 2019, essa foto do Everest me chegou assim — ubíqua, instantânea, sem aura. Uma fila de pessoas esperando para pisar no teto do mundo! Me recordei que eu torcia para o meu pai me contar sobre os alpinistas que subiram pela primeira vez o Everest, eles fizeram o impossível eram os meus heróis e eu sonhava com esses feitos.

Refletindo sobre a minha infância, nos relatos dos feitos notáveis, na torcida pelos heróis, tantas coisas misteriosas que ganhavam uma autojustificativa — valiam o risco! E agora — agora não sei o que vale!

Talvez seja isso a velhice: não a falência do corpo, mas a falência da capacidade de encontrar sentido, ou a,aura, nas coisas massificadas. O mundo atual oferece tudo de tudo, em tempo real. E eu, impassivo, não sei mais por quem torcer?!