Os alimentos e os estados mentais

por
Arthur Müller
em 2024 ― atual. jun2026

imagine um aquário

quando a água fica suja
o peixe adoece

A qualidade e quantidade dos elementos químicos ingeridos influenciam o funcionamento de todos os órgãos de nosso corpo. O cérebro é um órgão de nosso corpo, portanto ele também é influenciado!

Doença vs Sintoma

Muitos dos elementos químicos que ingerimos diariamente não existiam antes da década de 1950 e esta troca de padrão alimentar não intoxica de imediato, não ajuda no reestabelecimento da saúde e em grandes quantidades pode ser deletéria. Sobre essa ingesta de químicos, fazem alguns anos um paciente comentou: "zumbis ... zumbis não estão somente nos filmes, agora as nossas células vagam em busca de nutrientes e só acham conservantes". Para muitas situações que denominamos "apareceu uma doença" o processo foi o oposto, durante anos saqueamos a nossa saúde, até o corpo bater no tatame!

Os impactos da dieta sobre a saúde, é um tema antigo, e após a revolução industrial, na Europa em meados do século XVIII, ganhou um novo contorno. A concentração de pessoas nos grandes centros, alterou o padrão alimentar e aos poucos apareceu uma nova indústria: a alimentícia. Desde então, já se passarram alguns séculos e entre os muito avanços apareceram alguns efeitos colaterais, que de tão comuns são considerados como "normais à vida e ao envelhecimento", como: hipertensão, resistência a insulina, diabetes tipos 2 (já se fala em tipo 3), triglicerídeos elevados, hiperuricemia, inflamação crônica de baixo grau, obesidade central etc. Recentemente, tais enfermidades passaram a ser agrupadas sob o conceito de "síndrome metabólica" que tece uma associação entre elas os padrões alimentares e o sistema digestório. Em mais alguns anos tal forma de se observar as convalescenças deve mudar a forma como tratamos certas "normalidades".

Um outro aspecto mais próximo de nosso cotidiano, o sulfixo "ite" designa processos inflamatórios (rinites, artrites, cistites, colites etc.) alguns com causas específicas como alergênicos e microorganismos, entretanto muitos desses estados, sobretudo os inespecíficos podem ter uma estreita relação com o sistema digestório.

Alimentos no corpo

Após ingeridos, metabolizados e filtrados pelo sistema digestivo, os alimentos viram elementos químicos na circulação sanguínea. Entretanto, nem todos esses elementos são benéficos para o corpo, alguns "maus", que burlaram a filtragem inicial, adentram na circulação. As veias que transportam o sangue para os órgãos se bifurcam e vão se transformando em delgados capilares, disponibilizando as substâncias às celulas. No cérebro esses capilares são mais finos e menos permeáveis, selecionando, ainda mais, os compostos que estarão disponíveis ao sistema nervoso central. Essa rede de capilares cerebrais é denominada "barreira hematoencefálica" e quando um elemento "mau" passa pela barreira e adentra no liquor, ganha uma nova denominação: "neurotóxico".

Já não é novidade que álcool, açúcar, consumíveis ultraprocessados etc., possam causar alguns males. Há uma ampla divulgação dos efeitos deletérios das drogas na percepção de quem somos e que a neurointoxicação está correlacionada a processos de degeneração neuronal. Entretanto, os efeitos das substâncias "boas" na melhora do funcionamento cerebral são menos conhecidos. Tais nutrientes influenciam positivamente os "estados mentais" e, consequentemente, em nossa autopercepção e "idéias". Um bom modelo é imaginar os nutrientes, dos bons alimentos, como coadjuantes de nossos "estados mentais" e que em algumas situações podem assumir o lugar de protagonistas. Vovó diria: "sopa e descanso curam metade das doenças".

Nas últimas décadas os estudos sobre o eixo "intestino-cérebro" (neuroentérico - gut-brain) tem reforçado a importância da alimentação nos "estados mentais". Os hormônios gaba, dopamina e serotonia, ligados ao bem estar, prazer, motivação, sono, humor, ansiedade etc., são produzidos no sistema digestório e dependentes da qualidade da microbiota. A névoa mental (brain fog) apresenta uma substancial melhora quando o paciente passa a controlar os picos glicêmicos e consequentemente diminui a resistência à insulina. Portanto, as melhoras alimentares que diminuam as disfunções metabólicas auxiliam nos tratamentos de: depressão, TDAH, ansiedade, progressão do Alzheimer, crises epiléticas, esquizofrenia, autismo etc. ... e não, não curam, não são a solução mágica. Tais cuidados podem ser compreendidos como "medidas básicas" ou como bons coadjuvantes, nota-se uma diferença perceptível nos paciente que trocam o sedentarismo e uma dieta de ultraprocessados por uma vida ativa e dieta balanceada com bons nutrientes.

"...a existência de influências entre alimentação e estados mentais é um fato, atualmente as pesquisas focam em compreender tais relações..."


Tabela Dieta x Estado Mental

As tendências de piora da depressão e ansiedade com o sistema digestório já estão sendo estudadas. A tabela, abaixo, relaciona alguns tipos de dietas, estados corporais com os estados mentais.

Dieta / Categoria
Estado Mental
Ref.

Ultraprocessados
Depr. ↑ | Ans. ↑
1

Pró-inflamatória
Depr. ↑ | Ans. ↑
2

Inflamação sistêmica
Depr. ↑ | Ans. ↑
3

Restrição calórica
Depr. ↓ | Ans. =
4

Vitamina D suplem.
Depr. ↓ | Ans. =
5

Ômega-3 (EPA/DHA)
Depr. ↓ | Ans. ↓
6

Cetogênica
Depr. ↓ | Ans. =
7

Plant base anti-infl.
Depr. ↓ | Ans. ↓
8

Probióticos
Depr. ↓ | Ans. ↓
9

Vit. Complexo B supl.
Depr. ↓ | Ans. ↓
10


Depr. = Depressão
Ans. = Ansiedade

Referências

1 - Samuthpongtorn M et al. Consumption of Ultraprocessed Food and Risk of Depression. JAMA Network Open. 2023. PubMed PMID: 37728928.
2 - Phillips CM et al. Dietary inflammatory index and risk of depression and anxiety. Clin Nutr. 2018. PubMed PMID: 28912008.
3 - Zeng Y et al. Inflammatory Biomarkers and Risk of Psychiatric Disorders. JAMA Psychiatry. 2024. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2024.2185. PubMed PMID: 39167384.
4 - George.E.S et al. Diet Overall and Hypocaloric Diets Are Associated With Improvements in Depression but Not Anxiety in People With Metabolic Conditions. Adv Nutr. 2024. PubMed PMID: 38184198.
5 - Vellekkatt F, Menon V. Efficacy of vitamin D supplementation in major depression. Journal of Postgraduate Medicine. Revisões atualizadas até 2022. PubMed Central.
6 - Appleton KM et al. Omega-3 fatty acids for depression in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2021 (atualizações recentes). DOI: 10.1002/14651858.CD004692.pub4.
7 - Brietzke E et al. Ketogenic Diets and Symptoms of Depression and Anxiety: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Psychiatry. 2025. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2025.3261.
8 - Mesas, A.E. et al. Plant-Based Diets and Mental and Neurocognitive Health Outcomes. Nutritional Neuroscience. 2025. PubMed PMID: 40720633.
9 - Ng QX et al. A meta-analysis of probiotics for anxiety and depression. Nutrients. 2023. DOI: 10.3390/nu15040933.
10 - Young LM et al. B-group vitamins and mental health outcomes. Nutrients. 2020–2022. DOI: 10.3390/nu12020338.


Sobreposição de dietas

Não pode isso, não pode aquilo, mas, também, não pode aquele outro... as pessoas que tentam fazer dietas sem qualquer orientação acumulam problemas ligados a frustração dos insucessos, a má-nutrição e nos casos de doenças em curso a atenção deve ser redobrada. Como diz um amigo: "Observo que muitas das tentativas solitárias para atingir a saúde, acabam por gerar mais problemas do que soluções. Não são apenas os macronutrientes, precisamos pensar sobre a qualidade dos alimentos e sobre os padrões alimentares."

Tanto as dietas baseadas no "balanço energético" quanto nas baseadas no "carboidratos-insulina", demandam do desenvolvimento de hábitos saudáveis. O indivíduo deve avaliar seu ambiente e quais alterações serão mais efetivas a longo prazo e, certamente, um profissional da saúde pode ajudar nessas ponderações.

... as mudanças de hábitos demandam dedicação, muita dedicação ...
boas mudanças!!!



Alguns textos sobre o tema


Anderson, Scott   The psychobiotic revolution: mood, food, and the new science of the gut-brain connection
Carreiro, Denise   Abordagem nutricional na prevenção e tratamento do autismo
Gundry, S. The gut-brain paradox
Kachani & Cordás   Nutrição em psiquiatria
Palmer, Christopher   Brain energy: a revolutionary breakthrough in understanding mental health
Souto, José   Uma dieta além da moda
Walsh, William   O poder dos nutrientes

Alimentos e cefaléia
FODMAP

Aspectos do alcoolismo
Dias livres de alcool - drink free days
Álcool e sarcopenia
O accumbens e o vinho
Drogadicção
A árvore solitária do Ténéré
Abstinência de cafeína
ONU - No level of alcohol is safe
The Guardian: society alcohol
The Guardian: alcohol guidelines