Os alimentos e os estados mentais
quando a água fica suja
o peixe adoece
A qualidade e quantidade dos elementos químicos ingeridos influenciam o funcionamento de todos os órgãos de nosso corpo. O cérebro é um órgão de nosso corpo, portanto ele também é influenciado!
Doença vs Sintoma
Muitos dos elementos químicos que ingerimos diariamente não existiam antes da década de 1950 e esta troca de padrão alimentar não intoxica de imediato, não ajuda no reestabelecimento da saúde e em grandes quantidades pode ser deletéria. Sobre essa ingesta de químicos, fazem alguns anos um paciente comentou: "zumbis ... zumbis não estão somente nos filmes, agora as nossas células vagam em busca de nutrientes e só acham conservantes". Para muitas situações que denominamos "apareceu uma doença" o processo foi o oposto, durante anos saqueamos a nossa saúde, até o corpo bater no tatame!Os impactos da dieta sobre a saúde, é um tema antigo, e após a revolução industrial, na Europa em meados do século XVIII, ganhou um novo contorno. A concentração de pessoas nos grandes centros, alterou o padrão alimentar e aos poucos apareceu uma nova indústria: a alimentícia. Desde então, já se passarram alguns séculos e entre os muito avanços apareceram alguns efeitos colaterais, que de tão comuns são considerados como "normais à vida e ao envelhecimento", como: hipertensão, resistência a insulina, diabetes tipos 2 (já se fala em tipo 3), triglicerídeos elevados, hiperuricemia, inflamação crônica de baixo grau, obesidade central etc. Recentemente, tais enfermidades passaram a ser agrupadas sob o conceito de "síndrome metabólica" que tece uma associação entre elas os padrões alimentares e o sistema digestório. Em mais alguns anos tal forma de se observar as convalescenças deve mudar a forma como tratamos certas "normalidades".
Um outro aspecto mais próximo de nosso cotidiano, o sulfixo "ite" designa processos inflamatórios (rinites, artrites, cistites, colites etc.) alguns com causas específicas como alergênicos e microorganismos, entretanto muitos desses estados, sobretudo os inespecíficos podem ter uma estreita relação com o sistema digestório.
Alimentos no corpo
Após ingeridos, metabolizados e filtrados pelo sistema digestivo, os alimentos viram elementos químicos na circulação sanguínea. Entretanto, nem todos esses elementos são benéficos para o corpo, alguns "maus", que burlaram a filtragem inicial, adentram na circulação. As veias que transportam o sangue para os órgãos se bifurcam e vão se transformando em delgados capilares, disponibilizando as substâncias às celulas. No cérebro esses capilares são mais finos e menos permeáveis, selecionando, ainda mais, os compostos que estarão disponíveis ao sistema nervoso central. Essa rede de capilares cerebrais é denominada "barreira hematoencefálica" e quando um elemento "mau" passa pela barreira e adentra no liquor, ganha uma nova denominação: "neurotóxico".Já não é novidade que álcool, açúcar, consumíveis ultraprocessados etc., possam causar alguns males. Há uma ampla divulgação dos efeitos deletérios das drogas na percepção de quem somos e que a neurointoxicação está correlacionada a processos de degeneração neuronal. Entretanto, os efeitos das substâncias "boas" na melhora do funcionamento cerebral são menos conhecidos. Tais nutrientes influenciam positivamente os "estados mentais" e, consequentemente, em nossa autopercepção e "idéias". Um bom modelo é imaginar os nutrientes, dos bons alimentos, como coadjuantes de nossos "estados mentais" e que em algumas situações podem assumir o lugar de protagonistas. Vovó diria: "sopa e descanso curam metade das doenças".
Nas últimas décadas os estudos sobre o eixo "intestino-cérebro" (neuroentérico - gut-brain) tem reforçado a importância da alimentação nos "estados mentais". Os hormônios gaba, dopamina e serotonia, ligados ao bem estar, prazer, motivação, sono, humor, ansiedade etc., são produzidos no sistema digestório e dependentes da qualidade da microbiota. A névoa mental (brain fog) apresenta uma substancial melhora quando o paciente passa a controlar os picos glicêmicos e consequentemente diminui a resistência à insulina. Portanto, as melhoras alimentares que diminuam as disfunções metabólicas auxiliam nos tratamentos de: depressão, TDAH, ansiedade, progressão do Alzheimer, crises epiléticas, esquizofrenia, autismo etc. ... e não, não curam, não são a solução mágica. Tais cuidados podem ser compreendidos como "medidas básicas" ou como bons coadjuvantes, nota-se uma diferença perceptível nos paciente que trocam o sedentarismo e uma dieta de ultraprocessados por uma vida ativa e dieta balanceada com bons nutrientes.
"...a existência de influências entre alimentação e estados mentais é um fato, atualmente as pesquisas focam em compreender tais relações..."
Tabela Dieta x Estado Mental
As tendências de piora da depressão e ansiedade com o sistema digestório já estão sendo estudadas. A tabela, abaixo, relaciona alguns tipos de dietas, estados corporais com os estados mentais.Depr. = Depressão
Ans. = Ansiedade
Referências
1 - Samuthpongtorn M et al. Consumption of Ultraprocessed Food and Risk of Depression. JAMA Network Open. 2023. PubMed PMID: 37728928.2 - Phillips CM et al. Dietary inflammatory index and risk of depression and anxiety. Clin Nutr. 2018. PubMed PMID: 28912008.
3 - Zeng Y et al. Inflammatory Biomarkers and Risk of Psychiatric Disorders. JAMA Psychiatry. 2024. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2024.2185. PubMed PMID: 39167384.
4 - George.E.S et al. Diet Overall and Hypocaloric Diets Are Associated With Improvements in Depression but Not Anxiety in People With Metabolic Conditions. Adv Nutr. 2024. PubMed PMID: 38184198.
5 - Vellekkatt F, Menon V. Efficacy of vitamin D supplementation in major depression. Journal of Postgraduate Medicine. Revisões atualizadas até 2022. PubMed Central.
6 - Appleton KM et al. Omega-3 fatty acids for depression in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2021 (atualizações recentes). DOI: 10.1002/14651858.CD004692.pub4.
7 - Brietzke E et al. Ketogenic Diets and Symptoms of Depression and Anxiety: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Psychiatry. 2025. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2025.3261.
8 - Mesas, A.E. et al. Plant-Based Diets and Mental and Neurocognitive Health Outcomes. Nutritional Neuroscience. 2025. PubMed PMID: 40720633.
9 - Ng QX et al. A meta-analysis of probiotics for anxiety and depression. Nutrients. 2023. DOI: 10.3390/nu15040933.
10 - Young LM et al. B-group vitamins and mental health outcomes. Nutrients. 2020–2022. DOI: 10.3390/nu12020338.
Sobreposição de dietas
Não pode isso, não pode aquilo, mas, também, não pode aquele outro... as pessoas que tentam fazer dietas sem qualquer orientação acumulam problemas ligados a frustração dos insucessos, a má-nutrição e nos casos de doenças em curso a atenção deve ser redobrada. Como diz um amigo: "Observo que muitas das tentativas solitárias para atingir a saúde, acabam por gerar mais problemas do que soluções. Não são apenas os macronutrientes, precisamos pensar sobre a qualidade dos alimentos e sobre os padrões alimentares."Tanto as dietas baseadas no "balanço energético" quanto nas baseadas no "carboidratos-insulina", demandam do desenvolvimento de hábitos saudáveis. O indivíduo deve avaliar seu ambiente e quais alterações serão mais efetivas a longo prazo e, certamente, um profissional da saúde pode ajudar nessas ponderações.
... as mudanças de hábitos demandam dedicação, muita dedicação ...
boas mudanças!!!
Alguns textos
Anderson, Scott The psychobiotic revolution: mood, food, and the new science of the gut-brain connection
Carreiro, Denise Abordagem nutricional na prevenção e tratamento do autismo
Gundry, S. The gut-brain paradox
Kachani & Cordás Nutrição em psiquiatria
Palmer, Christopher Brain energy: a revolutionary breakthrough in understanding mental health
Souto, José Uma dieta além da moda
Walsh, William O poder dos nutrientes
... e muitos outros ...
Zeng et al. Inflammatory Biomarkers and Risk of Psychiatric Disorders. JAMA Psychiatry 81(11):1118-1129, url: doi: 10.1001/jamapsychiatry.2024.2185 , 2024.
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